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Dolina

Origem do termo dolina

Em seu trabalho, Cvijić da grande importância à representação das formas como elemento apriorístico para, a partir dele, intuir os processos ou leis causais dos carstes particulares. Tanto que, atribui às feições chamadas de dolinas, o caráter, a identidade, ou, ainda, a evidência do estágio em que se encontram os terrenos cársticos, dentro de uma perspectiva histórica, ou, evolutiva. Tal importância fica evidenciada na divulgação de um dos primeiros mapas temáticos (Figura 1) de feições cársticas conhecidos. Neste é possível observar a densidade de dolinas do Carste Dinárico estudado por Cvijić.

No texto da tese Das Karstphanomen em que trata sobre o tema, o autor lembra que “Nós, assim, compreendemos sob o nome de "dolina" todas as formas de depressões afuniladas, relativamente pequenas que são a paisagem especialmente característica das áreas cársticas” (Cvijić, 1981, p. 24).

Dolinas

Figura 1. Representação de paisagem preenchida por dolinas nas proximidades de Sežana, na Eslovênia. As linhas do mapa mostram a estrutura viária regional (Cvijić, 1893, apud SHAW, 2007).

Para Cvijić, uma estratégia de controle metodológico sobre o conceito de dolina foi o uso restrito dessa palavra eslovena, exclusivamente, às depressões pequenas, já que, mesmo semelhante a elas em termos de forma, as depressões maiores por estarem, segundo ele, em outro estágio do ciclo e, por tanto, devem ser denominadas de forma diferenciada. Sua maior preocupação é superar a multiplicidade de sinônimos diminuindo ou eliminando ambiguidades conceituais em relação ao fenômeno onde e em qualquer escala que venha a ser tratado. A fim de normalizar a sua proposta conceitual, o autor afirma que “As formas mais amplamente distribuídas em todas as regiões cársticas são as dolinas pequenas de forma afunilada, circular ou elíptica, com uma profundidade de 2 a 20 m (média de 7 a 8 m) e um diâmetro de 10 a 120 m (média 50). Os valores apresentados são médias trabalhadas a partir de 300 medições que eu fiz das dolinas pequenas no leste da Sérvia e na região cárstica Adriático, nomeadamente na Carniola, Ístria, Montenegro e Herzegovina” (CVIJIĆ, 1981, p. 24).

À época da apresentação de sua tese, Cvijić participara ativamente do debate que ocorria em torno da explicação para a ocorrência de dolinas, no qual, de um lado, estavam autores como: Stache, Tietze, Schmidl, Fruwirth, Kraus e Putick, aos quais Cvijić, após uma análise cuidadosa dos respectivos trabalhos, classificou de tradicionais, dada a visão catastrofista que tinham em relação à gênese das dolinas, atribuída única e exclusivamente a colapsos efêmeros. Tietze (1880), um dos maiores representantes dessa linha, questiona “Onde as cavidades são formadas tais como as que foram efetivamente comprovadas, a existência de colapsos deve eventualmente ocorrer. E onde mais os efeitos que estes colapsos têm na superfície devem ser procurados, se não nas dolinas? Se não, a quais outras características da superfície seriam possíveis correlacionar tais colapsos?” (Tietze, 1880, apud CVIJIĆ, 1981, p. 33).

Em oposição ao grupo anterior estão Mojsisovics, Diener, Martel, Cox, Sawkins, Prestwich, Van den Broeck e Lyell, aos quais Cvijić se juntou na constatação empírica de que a maior parte das dolinas não tem ligação com caverna alguma e que o aparecimento de dolinas está ligado à dissolução do calcário através das fissuras na rocha. Na visão de Cvijić, esse modelo, embora apresentasse traços teleológicos 1, além de representar o movimento de oposição à visão catastrofista da gênese das dolinas, estava mais próximo das tendências que consideravam que o fenômeno estava associado a um processo mais gradual e que buscavam a integração entre o meio subterrâneo e o meio externo. Assim “A água atmosférica que forma os córregos tem uma tendência a juntar-se à água subterrânea ou ir aos vales mais profundos. Ela procura juntas e fissuras e, através delas infiltra-se ou flui. Como uma consequência da dissolução do calcário pela água que contém CO2 nesses pontos, formam-se sumidouros”. (CVIJIĆ, 1981, p. 32).

Cvijić descarta inclusive o argumento de que os abismos que levam às cavernas e aos fluxos subterrâneos seriam inequivocamente produtos de colapsos, refutando essa tese pela simples falta, ou, fragilidade nas provas de que os cones de detrito acumulados na base das dolinas poderiam ter ocasionado uma sobrecarga no teto e causado o desabamento. Ele afirma que, ao contrário, esses detritos poderiam ter inúmeras outras origens possíveis como, p.ex., acúmulos no contato da dolina com a caverna, resultantes de inundações ocorridas previamente. Para Cvijić, a dolina de colapso é a exceção à regra e não o contrário, por uma simples questão de lógica empírico-dedutiva: não há cavernas suficientes para o montante de dolinas existentes no mundo (CVIJIĆ, 1981).

Os conceitos contemporâneos de dolina

Na Europa a palavra doline é usada de maneira ampla com um significado morfográfico geral e concreto, tendo origem na subjetividade popular, como identificador das depressões escarpadas, ou, em forma de funil. Já nos EUA usa-se o termo sinkhole, desenvolvido pelos geólogos de engenharia. O termo caracteriza formas originadas de rebaixamentos súbitos ou graduais da superfície topográfica e. Para o autor, essa dualidade é prejudicial à ciência e pode levar a ambiguidades. As dolinas podem ser identificadas por atributos como: a forma geométrica: (hemisférica, cônica, cilíndrica, poligonal); dimensão de circunferência (centimétrica, métrica, decamétrica, hectométrica); gênese natural (de colapso; de subsidência; de cobertura; de interseção) e gênese antropogênica; estrutura hidrológica; funcionalidade; litologia; tectônica (ativa, inativa e relicta) (Sauro, 2003).

Diversos outros autores indicaram formas de classificação de dolinas utilizando-se de atributos acima mencionados de forma combinada ou independentes.

O Quadro 1 apresenta um histórico das diversas classificações de dolinas conhecidas e mais usuais, com significativa diversidade de nomenclatura dependendo do contexto.

Classificacao dolinas

Quadro 1. Histórico das diversas propostas de classificação de dolinas por diferentes atributos. (WALTHAM; BELL e CULSHAW, 2005).

As dolinas são morfologicamente caracterizadas pelo rebaixamento bem delimitado do terreno apresentando formas arredondadas, diferentemente do que incide com os escorregamentos, deslizamentos e outros processos gravitacionais.

Mais recentemente Ford e Williams (2007) restringiram a escala do fenômeno para uma pequena depressão razoavelmente fechada, e estenderam sua amplitude de ocorrência tornando-a autônoma em relação à gênese ou ao contexto climático.

Como exemplo da diversidade de ocorrência, pode-se citar o dolinamento em rocha não carbonática (arenito do Supergrupo Roraima) existente no Cerro Sarisariñama, nos Tepuis, fronteira do Brasil com a Venezuela (Figura 1). Contudo, Ford e Williams alertam para o fato de que a ausência de dolinas na paisagem não deve ser vista como sinal da ausência de processos cársticos, pois os aquíferos cársticos podem evoluir por um tempo sem apresentar manifestações na superfície.

Na literatura brasileira, as dolinas encontram-se repartidas, segundo critério temporal ou na velocidade de manifestação, em dolinas de colapso ou dolinas de subsidência (KARMANN, 2009). Entretanto, em boa parte dos textos que tratam sobre o carste, é mais comum de se observar alguma das opções do quadro supracitado.

Dolinas de origem antropogênica

Apesar de a maioria das concepções sobre as dolinas identificarem uma gênese natural, todavia, é cada vez maior a percepção de que a gênese espontânea de dolinas compete com as que têm origem decorrente de atividades antrópicas (WALTHAM; BELL e CULSHAW, 2005). Estas, ao interferirem no processo de carstificação, seja na explotação de recursos ou na injeção de matéria ou energia, acarretariam à carstificação uma maior velocidade. Tal indução antrópica é considerada como elemento diferencial em relação às causalidades naturais (FORD e WILLIAMS, 2007).

Assim, os dolinamentos induzidos, ao contrário dos de origem natural, estão associados, por exemplo, ao rebaixamento do lençol freático cárstico por explotação ou degradação do aquífero (WALTHAM; BELL e CULSHAW, 2005). De forma difusa, têm-se atribuído causas antrópicas para as impressionantes dolinas de colapso ocorridas na Cidade da Guatemala – Guatemala, em 2007 e 2010. Colapsos também são comuns nos terrenos carbonáticos dos EUA em especial em alguns estados como, por exemplo, o Kentucky, onde se o maior sistema de cavernas do mundo, o Mammoth Cave, com cerca de 640 km de desenvolvimento 2.

Os processos que levam à formação de fenômenos como as dolinas de colapso da rocha calcária, da rocha capeadora ou da cobertura de solo, caracterizam-se por serem repentinos, de curta duração e por ocorrerem sem prévio aviso, ou seja, sem indícios morfológicos superficiais. Embora raros, quando ocorrem em áreas densamente ocupadas podem levar a perdas humanas e materiais, como no caso supracitado.

Terrenos carbonáticos como a península da Flórida, EUA, também são suscetíveis a dolinamentos. No entanto, as depressões são mais frequentemente decorrentes de subsidências, que, diferentemente das dolinas de colapso, formam-se lentamente e podem evoluir de alguns dias a algumas décadas até estabilizarem-se por completo. As dolinas de subsidência do distrito de Winter Park são bastante comuns e já estão integradas à paisagem urbana.

Independentemente das causas, o uso e ocupação do solo urbano ou rural com a ocorrência de rochas carstificáveis deve elevar a cautela ao extremo ou “deve-se esperar o inesperado!” (FORD E WILLIAMS, 2007, p. 485).

Observações

[1] Que tem finalidade predefinidas por um pensamento superior, sobrenatural, ou, divino. [2] Fonte: Canving News. Dispnível em http://cavingnews.com/20130216-mammoth-cave-longest-cave-world-400-miles-kentucky (Acessado em 22/02/2014).

Referências

  • CVIJIĆ, J. The Dolines. In SWEETING, M. M. Karst Geomorphology. Hutchinson Ross Publishing Company, Stroudsburg, USA. p. 23-41. 1981.
  • FORD, D. e WILLIAMS P. Karst Hydrogeology and Geomorphology. Ed. John Wiley e Sons, 562 p. Londres, 2007.
  • KARMANN, I. Ciclo da Água: Água Subterrânea e sua Ação Geológica. In TEIXEIRA, Wilson et. al. (organiz.). Decifrando a Terra. Companhia Editora Nacional. 2ª edição. São Paulo, p. 113-138. 2009.
  • SAURO, U. Dolines and Sinkholes: Aspects of Evolution and Problems of Classification. Acta Carsologica. 32/2, 4, p. 41-52. Ljubljana. 2003.
  • WALTHAM, T., BELL, F. G. e CULSHAW, M. G. Sinkholes e Subsidence: Karst e Cavernous Rocks in Engineering e Construction. Springer Verlag, NY, EUA. 2005.