Ir para: navegação, pesquisa

Ressurgência

As concepções antigas sobre a origem das fontes ou ressurgências d’água subterrânea

Fontes ou ressurgências d’água subterrâneas são fenômenos atualmente reconhecidos com cársticos, mas que no passado foram inventivamente descritos por pensadores da antiguidade, religiosos e místicos. Com o decorrer do tempo, da evolução da racionalidade humana e das técnicas, essas concepções foram dando lugar a explicações cada vez mais sofisticadas.

Como exemplos das marcas míticas presentes no pensamento sobre os fenômenos cársticos, o ciclo das águas já foi visto como fruto da transmutação dos seus estados físicos. Já como resultado do mito das artérias terrestres, era um sistema movido por um coração que bombeava água dos oceanos para a superfície podendo, então, servir aos seres vivos, como ocorre similarmente às artérias do corpo humano. O fluxo dá água já foi comparado ao trato urinário no qual a água, após circular pela terra é expelida pelas fontes, como que encerrando o metabolismo do planeta. O modelo que associa o fluxo subterrâneo à metáfora da videira acreditava que a água entraria pelas ramificações, ou, raízes mais profundas da terra, indo até as fontes, ou, as folhas, imitando a adaptação das plantas à busca pela umidade no subsolo. No imaginário da antiguidade clássica, a assimetria existente entre mar e terra, posicionava esta última no centro do Universo, encontrando-se, surpreendentemente, acima nível do mar, por meio da ação planejada e executada pela mente criadora para que os seres vivos pudessem existir (HEGGEN, 2012).

O mito sobre o peso do mar, afirma que, por meio da pressão dos oceanos, as águas são empurradas para cima e brotam da terra firme. Para uns os terremotos produziriam as fontes, para outros, eram os sistemas de sifonamentos da água do mar que produziam jorros d’água nas fontes temporárias. Já se acreditou que o calor do interior da Terra era responsável pela emergência das águas das fontes, princípio esse, deduzido a partir da observação do Sol que condensa as nuvens e, consequentemente, produz a chuva. No modelo capilar, a água sobe do mar ao topo das montanhas num movimento do tipo antigravitacional no qual as águas subterrâneas movem-se por diferença de pressão entre o mar e a terra. Na tese pneumática, a água sobe à terra e sai pelas fontes devido aos ventos subterrâneos (HEGGEN , 2012).

O modelo compressivo afirma que a terra, tal qual uma esponja, sempre está embebida de água, porém, como sofre compressão constante, expele a água de suas entranhas através das fontes. Já a tese eletromagnética afiança que, da mesma forma que a interação das forças eletromagnéticas da Terra e da Lua produzem o efeito da maré, as águas subterrâneas também tem seu fluxo determinado por essa força. Por fim, note-se que as crenças míticas consideram as fontes, os rios e o mar como divindades femininas e, portanto, com atribuições ligadas à origem ou regeneração da vida (CASSINI, 1987).

Dentre todos os casos aludidos, em nenhum deles admite-se que a água subterrânea possa provir de outra origem que não o mar, pois as chuvas seriam insuficientes para encher os corpos d’água. Isso se dá devido à visão de natureza que valoriza as forças físicas erosivas marinhas, em detrimento da possibilidade de creditar à precipitação ácida a dissolução dos corpos rochosos e que formam as cavernas (GUNN, 2004).'

Foi Pierre Perrault (1674) quem - ao analisar os dados pluviométricos de três anos consecutivos da bacia do alto Sena (na Borgonha) aferindo periodicamente os resultados diretamente no rio, a fim de comparar os valores dos aportes totais do Rio com os das chuvas – constatou a correspondência entre os valores comparados, superando as antigas certezas de que a água da chuva era insuficiente para justificar os aportes dos rios”. (MARTÍNEZ GIL, 1972).

Referências

  • CASINI, P. As Filosofias da Natureza. Editorial Presença. 2ª edição, Lisboa, 1987.
  • GUNN, J. Encyclopedia of Caves and Karst Science. Fitzroy Dearborn. Londres/Nova York, 902 p. 2004.
  • HEGGEN, R. J. Underground Rivers: From the River Styx to the Rio San Buenaventura with Occasional Diversions. Publicação digital do autor, 1081 p. 2012. Disponível em: [1]. (Acessado em 09/01/2014).
  • MARTÍNEZ GIL, F. J. Aspecto Histórico y Evolutivo de las Ideas Acerca de las Aguas Subterráneas Desde los Tiempos más Remotos Hasta el Nacimiento de la Ciencia Hidrogeológica. 10 p. Inédito. 1972. Disponível em: [2]. (Acessado em 08/01/2014).