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Carste

Tradução do termo alemão Karst, originado da palavra krasz, denominação dada pelos camponeses a uma paisagem da atual Croácia e Eslovênia (antiga Iugoslávia), marcada por rios subterrâneos com cavernas e supefície acidentada dominada por depressões com paredões rochosos e torres de pedra (relevo cárstico).


A arqueologia do conceito científico de carste

A noção científica moderna sobre os processos e morfologia dos fenômenos cársticos foi definida no princípio do século XX e, ao longo deste, suas bases conceituais fundamentais sofreram inúmeras transformações até a atualidade. A cada nova proposição buscava-se as regularidades, imutabilidades e estabilidades necessárias a que o conceito de carste pudesse se tornar uma lei geral para abranger qualquer fenômeno cárstico.

Historicamente, a concepção de que o calcário é gradualmente dissolvido em vez de ser erodido pela água, começa a aparecer no século XIX, oriunda da análise mais pormenorizada e mais analítica dos fenômenos. Em alguns casos, a origem podia estar ligada à água aquecida ou, ainda, ser resultado de uma água fortemente ácida diante da presença de dióxido de carbono da chuva, sobre a qual se pensava anteriormente que fosse pura e simplesmente água (*GUNN, 2004).

É no contexto do positivismo comtiano que brotam as primeiras tentativas de se sistematizar os estudos dos fenômenos cársticos. Para o positivismo, o objeto de estudo particular deve ser desmembrado da sua realidade concreta; deve ter suas propriedades decompostas e analisadas; deve ser observado experimentalmente; classificado segundo as respostas aos estímulos e, por fim, simplificado segundo as leis gerais ou normais.

Podemos afirmar que o próprio contexto contribuiu, de um lado, para que a espeleologia, mais empírica e subjetiva, fosse separada dos estudos acadêmicos do carste que exigia um perfil de pesquisa mais experimental e modelar. É provável que, pelos mesmos motivos, Martel, pioneiro da espeleologia, nunca tenha sido considerado um acadêmico, embora tenha conquistado o respeito como se o fosse.

A institucionalização do conceito de carste

Não foi casual o surgimento do interesse científico sobre os fenômenos cársticos entre o século XIX e XX. As grandes transformações no espaço geográfico europeu tiveram repercussão na infraestrutura de transportes, comunicações, energia e de outros serviços complementares às estruturas urbano-industriais em expansão naquele período. Em meio a esse contexto, foram inventariadas as características geológicas, geomorfológicas e hídricas do território continental, a fim de que se superassem os limites impostos pela natureza à engenharia da época, principalmente as amplitudes de relevo alpino (*ROGLIC;, 1981).

Pode-se considerar que, com base nos inúmeros trabalhos surgidos entre meados e o fim do século XIX, a percepção sobre a inter-relação entre os fenômenos cárstico-espeleológicos subterrâneos e a morfologia superficial do terreno era cada vez maior. Como exemplo, embora pesquisando locais distintos, Virlet (1834) e Fournet (1852), na França; Owen (1856) e Cox (1874), nos EUA; Sawkins (1869), na Jamaica; e Hacquet (1778) e Gruber (1781), na Eslovênia, concordaram que as dolinas tinha relação com colapsos subterrâneos. Ainda que em diversos campos científicos o positivismo já se encontrasse inteiramente integrado ao trabalho dos pesquisadores e produzindo os resultados esperados, os estudos do carste ainda careciam de uma lei geral que englobasse e definisse de forma inequívoca, os fenômenos cársticos enquanto partes de um todo ou uma unidade. Além do mais, a nova teoria deveria trazer consigo o princípio evolucionista emergente que, desde Lamarck e Darwin, fazia parte da estrutura procedimental das pesquisas científicas em geral (*CAPEL, 1987).

O reordenamento intelectual e os debates decorrentes com a criação da cadeira de Geografia da Universidade de Viena, da qual faziam parte Albrecht Penck, Alfred Grund, o doutorando Jovan Cvijic; e muitos outros que se juntaram ao grupo, fizeram surgir uma conjunção de fatores favoráveis na direção do aprofundamento sobre os estudos cársticos, a saber: aglutinar o maior número possível de praticantes; manter a coerência da prática a partir de regras e procedimentos parametrizados ou normatizados capazes de gerar uma representação conceitual única e, finalmente, a autoafirmação e reconhecimento público da teoria.

Contextualmente a grande extensão de superfície carbonática, somada às estruturas geológicas dobradas alpinas, de grande parte da porção centro-sul do continente europeu (Quadro 1), são determinantes para a abundância de fenômenos cársticos como fontes ou ressurgências, dolinas, sumidouros, ponors, cavernas, lapiás (lapiés ou karrens) e, principalmente, os aquíferos cársticos subterrâneos (GUNN in ANDREO et al, 2010) que, em comparação às outras partes do mundo, estão entre as principais fontes de água para grande parte da população.

Assim sendo, esse componente geológico-geomorfológico que sempre fez parte da paisagem e por sua vez do arcabouço cultural europeu, no período em questão, ganha o status de objeto de ciência. Tem início aí os estudos do carste.

Carste

Quadro 1. Ocorrências de afloramentos carbonáticos por região do globo.

Fonte: Adaptado de http://web.env.auckland.ac.nz/our_research/karst/. Acessado em 10/01/2014.


Referências

  • CAPEL SÁEZ, H. Filosofia y Ciencia en la Geografia Contemporânea. Temas Universitarios. Barcanova, 2ª Edição. p. 509, 1983.
  • GUNN, J. Encyclopedia of Caves and Karst Science. Fitzroy Dearborn. Londres/Nova York, 902 p. 2004.
  • ________ Is the Term ‘Karst Aquifer’ Misleading? In ANDREO, B. et al. Advances in Research in Karst Media. Springer-Verlag Berlin. Heidelberg Londres/Nova York, p. 57-62. 2010.
  • ROGLIC, J . Historical Review of Morphological Concepts. In Herak, M. e Springfield, T. (ed.). Karst: Important Karst Regions of the Northern Hemisphere. Elsevier Pub. Co., p. 1-18, Holanda, 1972. Reimpresso por Sweeting, M. M. (Ed). Karst Geomorphology. Hutchinson Ross Publishing Company: *Benchmark Papers in Geology . Oxford, RU, p. 12-22. 1981.
  • KARMANN, I. . O Ciclo da Água, Água Subterrânea e sua Ação Geológica. In: Wilson Teixeira; Thomas Rich Fairchild; Maria Cristina Motta de Toledo; Fabio Taioli. (Org.). Decifrando a Terra. 1a ed. São Paulo: Oficina de textos, 2000, v. , p. 113-138.